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É tão fácil deixar andar. Simplesmente deixar. Uma ligeira tentativa aqui, outra ligeira tentativa ali. Só para disfarçar o deixar andar. E poder continuar a deixar andar. É tão fácil deixar andar. Não exige força, não exige motivação, não exige tentativa, não exige o risco de erro. Deixar andar exige continuar, apenas continuar. Os mesmos gestos, os mesmos hábitos, as mesmas respostas para as mesmas perguntas. Sempre a pura da mesma merda. Deixar andar é sempre a mesma pura da mesma merda. Estar na merda não é estar mergulhado na merda. Estar mergulhado é mau, claro. É muito mau. Mas o pior de tudo é estar apenas levemente besuntado de merda. O pior de tudo é estar impecável da cabeça aos pés, bem-cheiroso, imaculado, um brinquinho – e depois ter um pedacinho, um minúsculo centímetro ou nem isso, de merda na camisa ou nas calças ou nos sapatos. E aquele pedacinho de merda vai contagiando tudo o resto, e vai-se mantendo ali (porque é só um bocadinho e tu pensas que o limpas depois, e vais deixando para amanhã, outra vez para amanhã), sempre pequenino, sempre a perturbar-te. Sempre a manter-se por ali. E deixar andar é isso mesmo: a merdazinha, a merda pequeninha, a merda poucochinha, que vai ficando. Deixar andar é admitir estar limpinho da cabeça aos pés com um pedacito de merda pelo meio. E às tantas é aquilo que vês enquanto tu: aquela criatura impecável com um pedacinho de merda pelo meio. Mas não. Não. Tu não és esse gajo ou gajo. Mas não. Não. Tu não és alguém impecável da cabeça aos pés com um bocado de merda pelo meio. Tu és – e tens de querer sempre sê-lo – impecável da cabeça aos pés sem qualquer pedaço de merda pelo meio. Se é merda: é para expurgares de ti. Agarra nela e atira-a para bem longe. Não te deixes andar assim, com esse ligeiro cheiro, com esse ligeiro desconforto, com essa ligeira satisfação. Se é ligeira não é satisfação. Se é ligeira é outra qualquer coisa qualquer, é outra merda qualquer – mas não é satisfação. Se não és tu todo: então nem sequer és tu. Faz novas perguntas para poderes teres novas respostas, experimenta uma coisa por dia, nem que seja um gelado, um gesto, uma palavra. Experimenta, inventa, tenta, faz. Recusa deixar-te andar, recusa a facilidade doentia de deixares-te andar. Recusa tudo o que não seja tudo. Recusa nada que não seja tudo. Até porque qualquer nada é suficiente para já não ser tudo. 

Pedro Chagas Freitas

Porquê que deixámos as coisas andar? Porquê que nos contentamos com pouco?

Comentários

  1. Por vezes era tudo tão mais fácil de "deixássemos andar". Eu não sou assim, não consigo simplesmente "deixar andar", não consigo contentar-me com pouco...por isso é que vou atrás, por isso é que sofro e me desiludo, coisa que não aconteceria se me limitasse a deixar andar...mas prefiro as cicatrizes das derrotas do que a tristeza de não ter tentado sequer!

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  2. Este homem escreve realmente muito bem. E que grande texto!

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  3. Às vezes tornamos-nos demasiado passivos...

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